CRÔNICA
OFICINA DAS HORAS
Ao passar férias na casa dos meus avós paternos em Caruaru, eu me quedava a admirar a faina diuturna a que se dedicava o meu ancião avô.
Na minha imaginação infantil, ele deveria ter bem mais de oitenta anos, pela percepção do seu aspecto sisudo, do seu mutismo e do seu lento esforço para atravessar o pequeno quintal da casa até a rústica oficina de funileiro que mantinha há tempos, com o corpo diminuído pelo encurvamento espinhal próprio aos muito velhos.
Além de frequentar com assiduidade as missas de domingo ministradas na igreja catedral da cidade, todo o seu interesse era reservado unicamente à prática do ofício da funilaria, que a fazia por prazer, não por obrigação qualquer; dia após dia, desde depois do café logo cedo até ser chamado para o almoço pela avó.
A percepção que ele deixava transparecer era que aquela oficina era o seu derradeiro mundo, a que ele se empregava com dedicada concentração.
Ao longo da vida surgem incógnitas que somente a vivência posterior ensejará a compreensão a quem as assistiu para desvendá-las.
Compreendo agora, já em idade idosa, que o meu avô, na expectativa do porvir próximo não desejado, estabeleceu na sua funilaria a sua oficina das horas; que ele as manufaturava naquele espaço único e somente seu, ao forjar coisas sem aparente necessidade.
Na sua oficina das horas, o meu avô trabalhava o tempo com sabedoria, sem atentar para as ilusões tidas no passado, para as possíveis agruras do presente, para a agonia certa no futuro.
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Em 08/04/2020, no tempo do vírus, dedicada ao meu queridíssimo avô Esperidião Cordeiro da Silva.
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